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Imagine o cenário: você é o responsável por um dos maiores sucessos do funk de 2024, uma música que já era hit antes mesmo de ser lançada oficialmente, e que viralizou tanto que o público criou uma campanha implorando pelo seu lançamento oficial; mais do que isso, a música, além de sucesso comercial, é sucesso de crítica principalmente por mobilizar uma série de experimentações com sonoridades paulistanas.
Diante desse cenário, sua decisão é lançar um álbum de remixes dessa mesma acapella com 15 faixas. Pode parecer uma ideia absurda – e, de fato, soa como um risco enorme –, mas Caio Prince não só encarou esse desafio como também entregou um resultado surpreendente.
Ao convocar uma série de colaboradores, entre eles intérpretes e produtores de vários cantos do Brasil, Caio acaba por lançar um álbum que usa a repetição de uma acapella de sucesso para nos levar a uma viagem entre sonoridades. A repetição da acapella, em vez de soar cansativa, se torna um ponto de referência para o ouvinte, um instrumento de escuta. Já acostumados com Mc Luanna cantando “aos pouquinhos cê vai me botano”, o que nos mantém fisgados na audição do álbum são as variações de produção que cada artista adiciona à faixa original.
A dinâmica entre familiaridade e inovação gera um dos processos metalinguísticos mais interessantes que o funk brasileiro viu nos últimos anos. A faixa original já trazia elementos distintos dentro do funk paulista, ou seja, já explorava o som no qual estava inserida, e agora ela se expande para um álbum inteiro dedicado à exploração de diversos desses sons eletrônicos produzidos no Brasil.
Com 15 faixas, todas tecnicamente impecáveis, é de se esperar que algumas ressoem mais com o público do que outras. Afinal, a proposta aqui não é criar um disco homogêneo, mas sim um mosaico de possibilidades. O resultado é um álbum que não precisa ser ouvido sempre na íntegra, mas que, quando é, oferece um passeio pelas diferentes nuances da música brasileira. Nesse sentido, a obra tem proposta dupla, a partir dessa viagem ele te apresenta uma série de possibilidades que cabe a você decidir quais revisitar depois.
A gente não sabe se faz algum sentido indicar músicas favoritas, porque essa lista não tem nem como ser curta, mas as versões “Dancehall”, “Rock Doido”, “Brazilian Cunt”, “Cuz*nho Raso” e “Electro Safado” são indispensáveis. Mas se você gosta de música experimental, especialmente o que vem sendo feito no Brasil a partir do funk – e sejamos honestos, se você está aqui no aquele tuim você provavelmente gosta – é preciso tirar 38 minutos do seu dia para conhecer novos sons, novos produtores, ou apenas entrar nessa viagem musical.
Por fim, mas não menos importante, é importante parabenizar o Caio Prince pelo esforço de juntar produtores e intérpretes para produzir um álbum que constroi sua coesão a partir do dissenso, explorando diversas sonoridades e introduzindo vários ouvintes e muitas delas e seus artistas. Colaborações como essas demandam esforço e são comumente encabeçadas por labels (sejam rádios ou gravadoras) por diversas razões, especialmente as comerciais, mas mesmo frente a esse desafio Caio Prince decidiu ele mesmo apostar nesse formato.
Selo: Independente
Formato: Remix
Gênero: Funk / Eletrônica, Experimental