Crítíca | $ome $exy $ongs 4 U



★☆☆☆☆
1/5

CHEGA. É o mapa da fome norte-americano. Vinte e tantas músicas espalhadas em uma hora e vinte de duração. Poderia estar falando de Certified Lover Boy (2021) ou de For All The Dogs (2023) – que inclusive tem uma versão deluxe com quase duas horas do mais puro e hiper-ultra–especial drakeonismo cultural – mas na verdade estou falando da última empreitada (de construção civil mesmo, tem que existir algum IPTU da terra-do-bordo caríssimo a ser pago para se dar ao trabalho de um álbum desses) de Aubrey “Drake” Graham.

Drake sempre teve esse ar meio mela-cueca, meio cafajeste imbatível late-coração-bandido-late-coração. Não é de hoje que ele fala de modelos, de encontros, de sexo, de drogas, de jogo, de luxo, de carros e de qualquer outra coisa que um ardido coração canadense pode gostar de fazer em mansões e boates. E tá tudo bem. É o estilo que ele encontrou para vender camisetas com logo de corujinha e sentar na primeira fileira de todos os jogos do Toronto Raptors sem sofrer muito na vida. Errado sou eu que escuto achando que vou ouvir um novo If You’re Reading This It’s Too Late ou um Take Care, e esqueço que esse Drake foi dessa pra melhor em prol de plataformas de aposta (que dá 100 milhões por ano ao canadense) e briga com os amiguinhos.

Mas não dá mais. Até quando? Quando Scorpion (2018) saiu, ainda existiam algumas nuances da briga com Pusha T, alguns instrumentais notáveis, tem até dois hits globais e de quebra fez a garotada abrir porta de carro e fazer coraçãozinho ao som de “Kiki, do you love me? Are you Riding?”, e teve gente prenunciando que tinha alguma coisa errada ali, que parecia mais preguiça do que pulsão artística, que era mais sobre cantar números e vendas do que o som. Ah mas era só um trabalho… O Views (2016) tinha esse “c’est comme ça” e todo mundo gostou… pessimismo demais faz mal sabia? Meu tio morreu disso…

Sete anos e 8 oito álbuns depois, o Drake foi substituído por um robô que se move a partir de tequila Don Juan e esculturas do Kaws: você joga uma dose e um coitado dum bonequinho e sai uma música novinha pra tocar em casas noturnas e no carro quando você dá carona para seis pessoas num aperto e aí pedem pra colocar uma musiquinha legal e o desconforto ser menor.

Das batidas, raríssimos exemplares notáveis, das letras é OnlyFans de lá, pussy de cá, carro de acolá, Kendrick Lamar só de relance, que é pros fãs ficarem 😯 igual quando Thanos dava o ar da graça depois dos créditos de Capitão América. Os refrões chatos e que emanam e energia “me toquem num espaço onde a vodka Natasha é superfaturada e o corote estadunidense custa aproximadamente 20 dólares”, a colaboração com PARTYNEXTDOOR que não agrega nada que o próprio Drake não faria sozinho e gastando ainda menos recursos. É a festa da carne invertida: me parece que juntaram um monte de corpos num moedor e o resultado é tão amorfo e amalgamado que não dá pra saber de onde veio isso ou aquilo.

Pra não chutar cachorro morto: tem faixas legalzinhas, “NOKIA” é irônica no ponto certo, “MEET YOUR PADRE” não se leva nada a sério, e isso é ótimo. A sonoridade é melhor quando o drake sai da persona “sou dono da cena hip-hop moderna”, que convenhamos, nem ele acredita, e quando ele assume que ele é sim um pouco bobo e um pouco brega e que as pessoas que falam isso dele na internet estão um pouco certas sim. Ficar nessa forçação de barra e se vangloriar dá a ideia contrária do que ele quer dizer, e já que ele não vai voltar pro patamar de 2016, seria melhor abraçar de vez a galhofa. É meio aquela criança que não sabia a hora de parar de brincar e descansar. Eu sei que você quer ficar brincando de pega-pega, Drake, mas eu tô afim de tomar esse copo de suco Tang… Mas fica brincando aí sozinho que já-já a gente volta… E lá ficou Aubrey, correndo atrás de si mesmo… Mesmo que o Tang já tenha acabado.

Selo: OVO Sound
Formato: LP
Gênero: Rap e Hip Hop / Trap Soul, Alternative R&B
Pedro Piazza

Pedro, 21 anos. Cursa psicologia e tem uma quedinha pelas abordagens mais abstratas. Ama todos os tipos de arte e em especial a música, que guarda um lugar essencial em sua vida, principalmente as mais barulhentas. Parte da curadoria de MPB e hip-hop no Aquele Tuim

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