Crítica | Polari


★★★☆☆
3/5

Years & Years era aquele típico artista britânico de dance-pop que estoura nas rádios pop e nos clubes europeus e se mantém nessa mesma linha de produção, criando canções dançantes e cativantes que recebem bastante investimento nesses espaços, mas dificilmente fura essa bolha. Talvez uma descrição detalhada demais, mas que parece ser algo canônico para diversos artistas do gênero no país.

Years & Years e, agora, apenas Olly Alexander, parecia saber muito bem que fazia parte desse espaço e sempre buscou fazer o melhor que sabiam fazer: música pop dançante. E eles realmente tinham a habilidade para isso, seus dois álbuns como grupo musical, Communion e Palo Santo, foram recheados de dance-pops com produções sintéticas saborosas. Nunca fugiam do esperado dos artistas, mas era muito satisfatório.

Apesar disso, em 2021 o projeto passou a ser somente de Olly Alexander, que levou Years & Years a um caminho artístico conturbado. Night Call mantinha o mesmo estilo dançante dos seus trabalhos anteriores, mas em canções fortemente genéricas e sem personalidade que soavam como um misto de músicas que só faziam sucesso nas rádios dance europeias, mas nada tinha o toque refrescante das melodias de Olly Alexander.

Polari, entretanto, seu segundo trabalho como artista solo, parece voltar ao controle de sua carreira artística. É um disco que, como sempre, toma como aspecto central a abordagem dançante da música pop, mas apresenta muito mais substância que Night Call, alcançando qualidade semelhante a de suas obras no trio. Ele traz um conceito interessante e bem realizado dentro do contexto sonoro do registro, embora ainda haja incongruências.

Polari é um termo que designa um dialeto secreto usado na Grã-Bretanha pela comunidade LGBTQIA+ em um período em que a homossexualidade ainda não era legalizada. Dessa maneira, o registro busca ser um retrato da vivência de Olly Alexander como um homem gay a partir do dance-pop com referências bem utilizadas de ritmos historicamente marcados pelo protagonismo ou pioneirismo da comunidade.

Isso é evidente, especialmente na predominância do synthpop mergulhado nos sintetizadores energéticos do hi-nrg, estilo de electro-disco que tomou as pistas de dança dos clubes gays dos anos 80. Essa inspiração é muito bem utilizada na maior parte das músicas, que se mostram como alguns dos principais destaques. “Miss You So Much” é marcada pelo ritmo incessante do sequenciador e sintetizadores melódicos divertidos. Da mesma forma se destaca “Heal You”, com seus eletrônicos incessantes e melodias espirituosas que conseguem representar bem a sensação de paz de ter alguém ao seu lado pronto para te ajudar até nos seus piores momentos.

Esta faixa também é o destaque da mensagem lírica do álbum. É a que mais ressoa com a experiência LGBTQIA+ universalmente; uma música edificante sobre a cura do trauma, que aborda o medo das pessoas na comunidade de se expressarem como realmente são e como isso causa muita dor. Os outros momentos focam mais em relacionamentos em uma perspectiva homossexual, porém essa é a melhor representação do conceito do álbum, baseado no dialeto Polari. Se essa era uma forma exclusiva da comunidade de se comunicar em décadas passadas, “Heal You” mostra um sinal de consolo e conforto por Olly Alexander que só alguém LGBTQIA+ poderia dar a essa pessoa cheia de traumas por ter medo de ser quem ela é. Um tipo de situação que só alguém da comunidade, que passou pelas mesmas situações, poderia entender de forma tão intensa.

No geral, mesmo com o conceito mais lustroso, Polari é ainda um álbum de dance-pop previsível de Olly Alexander. Isso quer dizer que, na verdade, suas produções, embora com excelentes referências, ainda se mantêm muito centradas no usual dentro do cenário contemporâneo dos clubes europeus. Ainda assim, é uma abordagem desse estilo muito mais cativante que em Night Call, reafirmando a habilidade de construir boas canções pop até mesmo nos momentos em que o artista não veste suas influências do synthpop e electro-disco oitentista. Como em “I Know” e “When We Kiss”, principalmente, que focam nos ritmos que entraram em moda recentemente na cena eletrônica do Reino Unido de maneira saborosa, com suas melodias muito divertidas.

Ainda assim, o projeto tem suas incongruências, com algumas canções que pouco interessam o ouvinte com suas produções genéricas, como “Cupid's Bow”, que mesmo trazendo consigo algumas referências do darkwave que demonstram certo potencial, ela se prende muito em um synthpop simpático, porém básico e pouco expressivo.

Penso que, no geral, esse seja o principal aspecto que faz do trabalho do cantor não alcançar um destaque maior, muitos momentos são previsíveis demais, por mais que ele saiba tirar bom proveito dessas canções demasiadamente superficiais. Há também aquelas que diminuem o ritmo dançante e cativante do registro, soando muito sonsas. É o caso, em especial, de “Archangel”, no qual seu aspecto mais suave é cansativo demais e as melodias, que poderiam funcionar em uma produção diferente, aqui são enfadonhas. Mesmo assim, Polari posiciona Olly Alexander a um nível de qualidade muito mais próximo dos projetos de Years & Years como trio, em um disco recheado de dance-pop muito divertido.

Selo: Polydor
Formato: LP
Gênero: Pop / Dance-Pop

Davi Bittencourt

Davi Bittencourt, nascido na capital do Rio de Janeiro em 2006, estudante de direito, contribuo como redator para os sites Aquele Tuim e SoundX. No Aquele Tuim, faço parte das curadorias de Música do Leste e Sudeste Asiático, Pop e R&B.

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