Crítica | PRIORNOIA


★★★★☆
4/5

Tome uma lista de compras — exemplo-base para qualquer lista — com, digamos, 250 itens (sim, você está comprando o mercado inteiro). Essa lista é complexa; quantidades dos produtos, marcas preferidas, em quais mercados o preço está em conta e muitos outros dados no que já se transformou numa tabela. Por alguma fisgada do destino, porém, algo te atinge, uma revelação. Como um zumbido alto seguido de uma dor de cabeça excruciante: e se você musicasse essa lista? Não cantando os conteúdos dela (não estamos na época das paródias de 2016, graças a Deus), mas como seria se você transformasse as informações dessa lista em sons? Felizmente, essa ideia não precisa ficar só inflando seu crânio; é possível colocar isso em prática.

Conjuntos de informação e dados podem ser transformados em música por diversos processos, mas a maioria envolve passar os dados por softwares ou máquinas, que então os interpretam a partir de algoritmos, gerando sons via digital ou analógica. Pensando bem, com tal tecnologia a sua disposição, parece meio bobo usar uma tabela de compras como fonte de inspiração. Coitadinha, não é culpa dela, mas quando tudo que pode ser digitalizado é uma possível matéria-prima, é natural gravitar a recursos de maior valor, ou que contenham simbolismos que chamem mais atenção — que um dia alguém sinta isso com a tabela de compras.

Para o duo australiano VERMISTROPOS, essa fonte simbólica de inspiração é algo um pouco mais sério: o constante estado de vigilância imposto sobre nós. Inspirados no modelo panóptico que Foucault descreve em Vigiar e Punir, eles tomaram gravações de câmeras de segurança como base para o processo de sonificação de dados (do inglês “data sonification”). Não sei o que Foucault acharia disso; o conteúdo musical, que se assemelha a com o que técnicas de glitchização e noise eletrônico geram, pouco tem a ver com a erraticidade cardíaca que a vigilância inescapável proporciona. O óbvio seria fazer um projeto industrial, cuja repetição cínica seria suficiente para retratar Foucault em seu primor. Em contrapartida, o duo fez uma obra em que nenhum segundo é um reflexo ou continuação de um segundo anterior; um fluxo tão livre que não tem sombra.

Essa diferença nos leva a um caminho: nesse projeto, pouco importa o que Foucault quis dizer ou não, e não interessa se sua teoria está de fato presente. PRIORNOIA é uma afirmação pós-Foucault, de um mundo que já não é mais o que fora descrito no século XX. A quantidade de vigilância só fez aumentar, mas isso fez os problemas mudarem; após nos apoiarmos tanto na vigilância, parece que seu valor se tornou incerto. De uma gravação, de um olhar, já não se sabe se o que será transmitido, repassado e interpretado é sua existência na íntegra. O que é retirado das vivências é uma parte instável, impossível de prever; ela pode acarretar em desastre ou em estrelatos picados. Com tantos olhos, os reflexos de nossa índole se fragmentaram, e cada um deles tem cem desses olhos escaneadores, cada um com um algoritmo diferente; qual deles impactará sua vida?

O panóptico ainda existe, mas dividido em partes suficientes para ser constituído de unidades indivisíveis, cada um vigiando a prisão inteira, mas só dando uma informação — aleatória — por segundo aos monitores na sala de controle. É por isso que o que parecem ser defeitos computadorizados e frequências incertas definem PRIORNOIA, é por isso que sua segunda metade é uma improvisação livre de piano, por isso que nada nele se repete: nossos ciclos de vigilância são tão onipresentes que convergiram à quebra. Nesse cenário, com essa visão, a erraticidade cardíaca é muito mais intensa que o que um mero experimento industrial forneceria.

O maior bem do mundo é informação — como em “data”, do inglês —, algo dado como “objetivo”, e que, mesmo assim, muda suas implicações a cada segundo. Um dos únicos experimentos capazes de repassar essa sensação só poderia ser extraído do bem em si. É reverter o palpável em coisa-em-si, o que impede qualquer análise concreta; um nível de abstração jamais alcançado antes. Em PRIORNOIA, a sonificação de dados não é um mero artifício, é seu propósito em si, como maneira de efetivar sua filosofia e provar um argumento teórico. Um uso de técnicas experimentais para seu melhor fim.

Selo: Independente
Formato: EP
Gênero: Experimental / Sonificação de Dados, Improvisação Livre

Sophi

Estudante, 18 anos. Encontrou no Aquele Tuim uma casa para publicar suas resenhas, especiais e críticas sobre as mais variadas formas de música. Faz parte das curadorias de Experimental, Eletrônica, Rap e Hip Hop.

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