Crítica | So Close To What


★★☆☆☆
2/5

Até o momento de publicação desta crítica, a capa narcísica que acompanha o novo álbum de Tate McRae, So Close To What, havia sido substituída por uma pior, que foi alterada de volta à cafonice original. Em caso de novas mudanças, a matéria não será atualizada, pois temos mais o que fazer.

A cantora canadense lançou seu terceiro álbum de estúdio na última sexta-feira (21). O sucessor de THINK LATER, de 2023, acompanha o crescimento da artista desde que a faixa “greedy” ganhou uma repercussão estrondosa, com mais de um bilhão de reproduções no Spotify. O novo projeto, que foi vazado um mês antes do lançamento oficial, chega como uma tentativa de consolidar o nome de Tate como uma das maiores promessas da música pop desta década. Ênfase em tentativa.

Criticada por uma falta de identidade e um apego demasiado pelo saudosismo, a artista tem buscado transmitir uma imagem mais autêntica e protagonista de sua carreira. Em entrevista à Apple Music, a cantora comentou sobre sua frustração pela forma como o público consome sua arte: “Vocês não estão me escutando, vocês estão me assistindo. Vocês estão vendo vídeos meus dançando, mas não estão me ouvindo enquanto compositora, que é a parte mais importante para mim”.

Esqueçamos, então, as coreografias titeriteiras e as apresentações injetadas de creatina artificial. Tiremos de foco a produção pensada milimetricamente para fisgar os saudosistas da música pop feita nos anos 2000 e 2010 — desta vez com percussões mais encorpadas em relação aos trabalhos anteriores da artista. O que sobra disso em So Close To What consegue ser ainda menos interessante.

Em “Miss possessive”, há uma tentativa frustrada de um hino sobre ciúmes, mas que acaba sendo mais uma demonstração de insegurança narrada por vocais com açúcar adicionado. É difícil acreditar em ameaças para ficar longe do seu homem quando você soa como se estivesse prestes a chorar se o visse beijando outra na sua frente. O lead single “It’s ok, I’m ok” trabalha melhor com a ideia de esconder seus receios através de uma autoconfiança forjada com melodias pegajosas.

A caricatura de popstar é assumida a plenos pulmões em “Sports car”, um hit inautêntico com vocais sussurrados à la Britney Spears e produção que remete aos tempos áureos das Pussycat Dolls. Tate chega a questionar como sua persona artística é percebida pelo público em “Purple lace bra”, com alguns versos duvidosos — “Eu estou perdendo a cabeça porque quando eu estou te chupando é / A única hora em que você pensa que eu tenho profundidade“.

“Revolving door” oferece um resultado muito mais interessante, com um jersey club humilde que guia o ouvinte por um vislumbre singelo da intimidade de uma jovem de 21 anos aprendendo a ser adulta. “Nostalgia”, que encerra o álbum, apresenta um panorama íntimo sobre a família da cantora em um momento acústico cômodo. São pequenos trechos como esses que despertam uma fagulha de esperança por uma autenticidade de Tate que é oferecida em doses homeopáticas.

Vocalmente, Tate precisa assoar o nariz e explorar sua voz para além dos falsetes. O uso exagerado da técnica e do tom anasalado dificulta a imersão em suas músicas. O contraste faz com que as parcerias ao longo do álbum tornem-se um gentil sopro de ar fresco nos ouvidos. Flo Milli entrega um verso competente em “bloodonmyhands”, enquanto The Kid LAROI apresenta uma desenvoltura vocal mais abrangente em “I know love”.

A arte nem sempre nos alimenta com certezas, às vezes sua força está em despertar as dúvidas certas. Mas, nesse caso, o poder do projeto é de levantar perguntas demais para respostas que não parecem ser tão interessantes. Se o amor é a matéria-prima de sua obra, quem é Tate McRae enquanto uma pessoa que ama? Porque o que tem sido demonstrado é quem ela é enquanto uma pessoa que mercantiliza suas emoções através de produtos de baixo valor agregado.

Se a cantora deseja ser reconhecida pelo que tem a dizer, por que não o disse em So Close To What? Se ela quer que as pessoas a identifiquem por quem ela é, por que o constante investimento em ter seu nome associado às suas referências? Se as danças, apresentações e clipes não deveriam ser o centro das atenções do público, por que, sem eles, as faixas perdem seu poder de sedução?

A música pop consolidou-se como força motriz da indústria fonográfica através de estruturas musicais complexas e composições inteligentes, cheias de nuances. Para adentrar o panteão de artistas que dominaram o gênero, é preciso muito mais do que somente apelo estético, coreografias excessivas e referências óbvias. Ao invés de se apresentar constantemente como uma pupila de Britney Spears, Tate McRae se beneficiaria de um autodidatismo.

Selo: RCA Records
Formato: LP
Gênero: Pop / R&B Contemporâneo
Tobia Ferreira

Emo de banho tomado e quase jornalista cultural. Graduando em Jornalismo pela USP e repórter do Aquele Tuim, em que faz parte das curadorias de Funk e R&B e Soul.

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