Revisando Discografias: Kali Malone


Hoje, o Aquele Tuim se debruça na discografia principal de uma das artistas mais desafiadoras do nosso tempo. Um nome tão perturbador quanto silencioso, misterioso e às vezes incompreendido: Kali Malone. Neste revisando discografias, discutiremos a riqueza de sua obra, que abrange diferentes espectros da música experimental — do drone ao pós-minimalismo. Mais do que isso, daremos a você o contexto de cada uma dessas peças, que representam não apenas o curioso estado criativo de Kali Malone — uma das melhores compositoras da década — mas também o porquê de ser uma inspiração para diferentes artistas que seguem seu caminho.




Black Gate
2016

★★★★★

Um dos primeiros trabalhos de Kali Malone, Black Gate já dava sinais dos caminhos que a compositora seguiria no futuro. Aqui, muito bem resolvida com a dinâmica minimalista de sondagem que marcaria projetos como Does Spring Hide Its Joy (2023), ela parece transbordar seus drones com texturas ambiente e ideias – excelentemente interrompidas – de melodias eletrônicas menos constantes.

O resultado é um álbum sucinto em sua concepção geral. É como se pudesse resumir parte dos sentimentos que Malone provoca em quem escuta suas composições e se depara com a imensidão criada por ela através de uma mistura de frieza e compaixão, vulnerabilidade e companheirismo, pois sabemos que cada detalhe, cada elemento – mesmo que seja uma linha microssintetizante que paira sobre ruídos (“Black Gate III”) – terá sua marca.

Essa é a alegria de consumir uma artista como Kali Malone; é saber compreender suas sensações, estas que sua música consegue causar como nenhuma outra – isso sem dizer uma única palavra. É quase clichê dizer isso, mas é impossível pensar em Black Gate sem mencionar sua força, seu toque sutil e pesado ao mesmo tempo como de um gigante dos contos de fada, que parece nos pegar em suas mãos imensas e nos soltar lá de cima, do céu, em queda livre. – Matheus José




Velocity of Sleep
2017

★★★★☆

Entre os acordes e dedilhados que são transmitidos sem direção em “Velocity of Sleep”, peça de vinte minutos que leva o nome do álbum, nota-se uma respiração pesada, que cria uma espécie de harmonia — ou falta dela — com os espaços preenchidos pela música. É algo tão íntimo, e estranho, porque embora possa haver razões (não sabemos), essa respiração ofegante surge do nada e não condiz com o tom calmo e lento da peça em questão.

É algo que chama a atenção não só pela forma como esse elemento é orquestrado em torno do minimalismo que cerca a obra de Malone. Aqui, porém, estamos longe da insistência de seus drones, dos sons de órgãos e dos breaks eletroacústicos — é uma espécie de som natural que vem da própria natureza. É um dos experimentos de ambiente mais interessantes de todos.

Em sua totalidade, não é necessariamente e obviamente uma adaptação à música ambiente. É um outro exercício de composição, e não dura muito, porque na sequência "1113" voltamos ao que Kali Malone faz de melhor. É surpreendente, porque enquanto em sua carreira ela ocupou igrejas para diferentes performances, ela também fez isso em cemitérios. E Velocity of Sleep se encaixa bem em ambos os ambientes. — Matheus José




Cast of Mind
2018

★★★★☆

Quase como o prenúncio de uma grande guerra, Cast Of Mind surge com sons penetrantes e uma impressão cortante de obscuridade. É um dos álbuns que estabeleceu o aspecto sombrio – mas puramente acessível – das composições de alto nível e relevo da artista.

Embora o termo “meditativo” não seja usado à luz da efusão de sons que o álbum oferece, seu aspecto relaxante é minado pela atmosfera nebulosa que seus drones articulam como se fossem verdadeiros pontos únicos de expressão de sentimentos que ela parece relutante em abandonar. É esse tipo de apego que faz de Cast Of Mind um de seus álbuns mais fáceis de digerir.

Ele não apenas carrega suas marcas, mas também se organiza para torná-las receptivas ao momento em que foi composto, quando Kali Malone ainda tentava encontrar suas veias narrativas e composicionais e, portanto, abraçou as facilidades (e maneirismos) do drone para criar algo que se encaixa tão bem com a perspectiva de algo que, por exemplo, Tim Hecker faria. É por isso que ele pode ser gesticulado de diferentes maneiras – todas incrivelmente visíveis. — Matheus José




The Sacrificial Code
2019

★★★★☆

The Sacrificial Code é caracterizado pela sensação de vastidão e imersão. Os sons contínuos e, por vezes, texturais recaem em sons sustentados de baixa frequência, nos colocando diante de um ambiente hipnótico. Além disso, é muito instigante a forma como as melodias longas e sustentadas, muitas vezes com pouca modulação, nos apresentam um movimento denso e natural. Dessa maneira, tudo soa mediativo, introspectivo e imersivo. Por exemplo, “Spectacle Of Ritual”, faixa que abre o álbum, é uma música que, o tempo todo, tende a ser melódica, mas é minimalista em sua estrutura e harmonia — é como se estivessemos diante de um ambiente liturgico, ao passo que nos encontramos em estado de transe.

Há algo na música de órgão que me deixa totalmente instigado, e isso se deve ao seu uso frequente de contrapontos, que são como diversas linhas melódicas independentes tocadas simultaneamente. Dessa forma, tudo vai se sustentando de maneira quase interminável, criando uma fluidez interessante. É como se Malone nos colocasse no ultrapasso da dimensão, gerando, ao mesmo tempo, uma dramaticidade impressionante em sua interpretação.

É tudo muito louco, pois, na medida que ela nos coloca diante de toda essa dramaticidade, ela também consegue fazer com que nosso imaginário sinta um relaxamento profundo, como é o caso de “Litanic Cloth Wrung”. É como se estivéssemos diante de um jardim com gramas verdes e um céu totalmente limpo, onde, a cada acorde, as nuvens se afastassem e o céu ficasse ainda mais azul. Aqui, as notas sustentadas e ressonantes carregam-nos para um imaginário instigante e, sem dúvidas, transitoriamente contemplativo, imerso e totalmente único. — Brinatti




Living Torch
2022

★★★★★

Kali Malone cruza a linha entre o que define o drone baseado no minimalismo ao propor ir além de sua experiência como organista. Living Torch, então, apresenta não apenas a substância linear de acordes semelhantes — é mais acessível que tudo isso, como se a compositora realmente abrisse mão de algo difuso para apresentar sua novidade musical mais intrínseca. E funciona perfeitamente.

Primeiro, porque aqui há uma definição mais precisa de sua incursão no drone — ela se torna a compositora de drone. Sua habilidade dada por meio da entonação justa a faz seguir os mesmos caminhos de quando compõe para órgãos de tubos, como em seu épico The Sacrificial Code, de 2019. Mais do que tudo, ela está demonstrando que sua força entre esses distintos meios de criação está longe de ser imutável, e que por mais semelhantes que sejam os resultados para a grande maioria das pessoas, suas peças são rigorosamente diferentes entre si.

Living Torch acaba sendo literal nesse sentido. Este é o álbum de Kali Malone que mais a vincula ao gênero que sempre foi vista com indiferença, seja por não ser um nome adorado pelos fãs de música experimental, seja por trazer uma abordagem diferente e precisamente díspar. Mas depois deste álbum, tudo mudou, é como se uma nova Kali Malone surgisse aos olhos do público, e ouvindo os longos minutos das duas peças aqui compostas, percebe-se que a semelhança se deve à facilidade de poder, finalmente, a classificar. — Matheus José




Does Spring Hide Its Joy
2023

★★★★★

As escalas rítmicas que Kali Malone compõe e esperançosamente alcança em Does Spring Hide Its Joy são o que fazem dele um dos trabalhos de drone mais interessantes de todos os tempos. Como se essa diferenciação não bastasse, o álbum ainda conta com uma centena de partículas microtonais e elementos extras, orquestrados por Lucy Railton e Stephen O'Malley. É o conjunto completo da arte e provocação da artista.

Suas extensas tomadas de gravação, girando em torno de diferentes versões de uma única composição, que se tornam várias diante dessa máxima, fazem a obra ganhar ruminações paradisíacas, percorrendo um espaço quase perfeito entre a eletrônica sombria, o minimalismo e a eletroacústica. É uma combinação tão exata quanto assustadora – enquanto Malone opera osciladores de onda senoidal, os acordes de violoncelo de Railton penetram nos cantos deixados pelas cordas de O'Malley. É um conjunto irreal.

Nas mais de três horas de gravação, somos absorvidos pela intensidade – e, às vezes, pela falta dela – com que tudo parece se organizar. Como resultado da expressão de um momento sombrio da história recente, a pandemia, Does Spring Hide Its Joy soa como uma transmissão de radiofrequência entre os estados que Kali Malone cobriu em seus vários projetos. É o drone, sua composição cercada pelo minimalismo de gênero e, acima de tudo, a afinação que a tornou um dos nomes mais intrigantes da música experimental hoje. — Matheus José




All Life Long
2024

★★★★★

Em All Life Long, a incursão entre o mundo da religiosidade e da profanação é a semente da qual germinam as longas e densas peças de Kali Malone, abrangendo as noções mais importantes que ela defende. Nesse sentido, é a sinalização do ponto de encontro de tudo o que já foi feito por ela até então.

Isso pode ser percebido pelo fato de conter suas primeiras composições para órgão desde 2019; por ambientar suas execuções eletrônicas outrora vistas em Living Torch, de 2022. E, também, por instigar a reflexão sobre a presença de Malone nas igrejas, tornando viva a arte que dali se escorre para o mundo.

Este álbum é uma obra que desperta diferentes sentidos, que nos coloca numa caixa vazia e nos empurra para ver a música e a vida de forma diferente, com a calma de que somos pequeninos e que só encontramos força na expansão do próprio tempo — não é à toa que aqui se encontra um processo de produção/composição que durou de 2020 a 2023. Tempo que não foi desperdiçado nem um pouco na perspectiva de uma das artistas mais interessantes da atualidade. — Matheus José
Aquele Tuim

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