Crítica | Every Video Without Your Face, Every Sound Without Your Name


★★★★☆
4/5

Em sua essência, o álbum é uma narrativa íntima, tecida por sete faixas que desvelam a angústia de Lucy Liyou ao confrontar a partida de um amor idealizado. Suas súplicas para que esse afeto permaneça não se traduzem em palavras explícitas, mas emergem de uma sonoridade minimalista, envolta em melancolia e quietude, longe de lamentações pós-término ou algo do tipo. A atmosfera é um véu translúcido: não grita, mas sussurra verdades diluídas em frequências e pausas. É como se cada nota fosse um suspiro preso entre as paredes de um quarto vazio, ecoando a solidão que só o silêncio consegue nomear.

Every Video Without Your Face, Every Sound Without Your Name carrega um melodrama fascinante, equilibrando-se na dualidade entre a perda romântica e as fissuras do amor parental. Liyou constrói essa tensão com delicadeza tocante: vozes esparsas, frases de duplo sentido e confissões tão cruas que exigem revisitas — como se cada audição revelasse uma nova camada sob o silêncio. O verdadeiro triunfo, porém, está na forma como o drama é transmitido por meio de texturas sonoras que somente ela sabe compor. São melodias que se contorcem em distorções, enquanto a voz de Liyou, pálida etérea, funciona menos como instrumento e mais como sombra, adornando paisagens que oscilam entre o quase mágico e a sobriedade.

Em “Credit” e “Arrested”, esse paradoxo ganha corpo. A primeira mergulha na melancolia da madrugada, com linhas melódicas tão baixas que quase se confundem com o ruído de fundo — uma simplicidade que gera angústia e nos preenche ao mesmo tempo. A faixa evoca a sensação de insônia, em que cada nota é um pensamento noturno que se repete até perder o sentido. Já em “Arrested”, o silêncio é elevado a elemento estrutural. Liyou não teme esvaziar as faixas, permitindo que o vazio respire e se transforme em tensão. Cada pausa é um intervalo calculado, um suspense que prepara o terreno para retomadas lentas, quase imperceptíveis, como se a música estivesse se reconstruindo diante do ouvinte, tijolo por tijolo.

Na faixa-título, o silêncio se fragmenta em atos. Gravações interrompidas, diálogos truncados e o som da chuva são costurados por intervalos que ocupam o espaço físico — como se a música habitasse não só os ouvidos, mas a sala inteira. Em quatro minutos e vinte e nove segundos, Liyou remenda sons e ausências, criando uma colagem que oscila entre o incompleto e o hipnótico. Há beleza nessa irregularidade, como em um vitral quebrado, cujos fragmentos refletem luzes distintas.

O álbum evoca uma obscuridade peculiar, não como falha, mas como extensão de sua visão artística. Sons de vento cortante coexistem com harpas melancólicas; memórias silenciadas ecoam entre todas essas texturas. É uma jornada que transcende o convencional, tornando o minimalismo ainda mais abrangente—uma ferramenta para amplificar o inefável.

Every Video Without Your Face, Every Sound Without Your Name é como observar constelações através de um telescópio enferrujado: há beleza na distorção, poesia no que está quase fora de alcance. Se galáxias pudessem compor sinfonias, seriam assim — caóticas, silenciosas e profundamente humanas. O álbum não teme a imperfeição; abraça-a como testemunho de que a arte reside justamente nas brechas, nos intervalos entre o que é dito e o que permanece cifrado.

Compre: Bandcamp
Selo: Orange Milk
Formato: LP
Gênero: Experimental / Ambiente

Antonio Rivers

Me chamo Antonio Rivers, graduando em História, amazonense nascido em 2006. Faço parte do Aquele Tuim, nas curadorias de Experimental, Eletrônica, R&B e Soul.

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