Crítica | Lonely People With Power


★★★☆☆
3/5

Deafheaven já é uma dessas bandas contemporâneas que se tornaram clássicas, muito devido à alta aclamação do seu trabalho pela crítica e uma recepção bem acalorada do público, em especial na internet. E tem motivo para isso, já que eles fazem uma sonoridade muito agradável para pessoas que não gostam muito de metal, e conseguem adaptar mesmo o black metal para algo que um grande público pode gostar.

Lonely People With Power caminha no mesmo sentido, ainda que mais interessante do que eles vinham fazendo nos seus dois álbuns anteriores. A aposta aqui é bem focada em atingir momentos épicos, faixas como “Winona” e “Amethyst” demonstram bem isso. Nelas, o terreno é preparado, lentamente, para absorver as guitarras mais dissonantes e os sintetizadores ao fundo, que constroem essas atmosferas catárticas. Normalmente esse tipo de abordagem é bastante apelativa, e aqui não deixa de ser, a diferença é que muitas vezes é inconveniente, e isso cria uma característica única para o álbum, mesmo em relação a outros da banda.

Riffs são muito comuns no rock e em boa parte do metal são essenciais, para certas bandas de black metal isso quase se dissolve no ar, e quando um riff muito específico se encaixa no meio do caos sonoro que o gênero normalmente traz é sempre uma ótima sensação. É isso que a banda aqui articula bem, pois os recursos melódicos, tanto dos sintetizadores quanto nos riffs, é lindamente bem encaixado. Um destaque é o que é feito na última música, “The Marvelous Orange Tree”. O esquema apelativo citado anteriormente está presente, sem sombra de dúvidas, mas essas quebras de ritmo entre a barreira sonora das dissonâncias de guitarra e o encaixe dos riffs melódicos fazem algo bem bonito, próximo ao dream pop oitentista.

Há um apelo também na produção limpa do disco, algo que para quem não está acostumado — ou somente não gosta — das convenções do black metal, de deixar tudo extremamente comprimido na mixagem (ou talvez nem sequer mixar o álbum), vai encontrar aqui uma sonoridade mais agradável. Além disso, ao pensar que uma das coisas mais interessantes são os encaixes melódicos, é o tipo de produção que sustenta muito bem esse teor mais épico e comercial da sonoridade do álbum.

Joseph Russo, um teórico da “Teoria Black Metal” (Black Metal Theory), disse que uma das coisas mais importantes sobre black metal é a decadência, o excesso dela, e isso de forma formal, não necessariamente discursiva. Em Lonely People With Power isso não é importante, sequer minimamente lembrado ao longo de toda a duração do disco — o épico aqui é de grandiosidade, uma ascensão limpa, nada decadente. A respeito do que ele acrescenta tecnicamente, teoricamente, é um álbum, assim como os outros da banda, que não serve como black metal, mas que é um bom metal para quem não gosta de metal.

Selo: Roadrunner
Formato: LP
Gênero: Rock / Blackgaze
Tiago Araujo

Graduando em História. Gosto de música, cinema, filosofia e tudo que está no meio. Sou editor da Aquele Tuim e faço parte das curadorias Experimental, Eletrônica, Funk e Jazz.

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