Crítica | MUSIC


★★★★☆
4/5

Escrever uma crítica de MUSIC é um sonho; a depender, um pesadelo. Playboi Carti coleciona faces vulgarmente — mais ou menos o triplo da quantidade de vezes que agrediu a namorada grávida no mesmo dia —, o que faz traçar paralelos e dar sentido a eles algo estupidamente difícil. O mais fácil é ignorar uma ou mais das faces, ou pincelar sobre elas como algo menos importante que o status do rapper ou as qualidades sonoras do álbum. Para mim (e muitos), porém, a quimera flamejante que Carti é é o que logiciza o lançamento de MUSIC; caso contrário, preferia que o rapper jamais lançasse um projeto do tipo novamente.

Ora, focar em apenas uma de suas joias como rapper seria negar todas as outras, e a partir deste momento toda a construção de sua persona — misteriosa, indecifrável como nenhuma outra — cairia por terra. Por que se autoproclamar pioneiro do rage quando sua orelha esquerda é cloud e seus calcanhares estão tingidos de pop? Por que fazer um álbum para as ruas quando você não sai de casa nem para o nascimento de seu filho? Escolher qualquer coisa seria uma palhaçada. Em resposta a este dilema, Carti teve a ideia mais óbvia: fazer tudo ao mesmo tempo. E, claro, funcionou.

Quando digo tudo, isso inclui contradições, e estas podem ou não ser paradoxos. Ao passo que certas músicas incorporam, sim, novas tendências de Atlanta, em especial um novo drill que pega um pouco de Chicago, Nova Iorque e da internet, muitas vezes essas mesmas músicas repetem ideias, estilos e formas de se fazer trap que o próprio Carti já se cansou de fazer. Em outras músicas, o tipo hipnótico e derretedor de ouvidos de rage recebe vocais cantados à la o que artistas como skaiwater e wolfacejoeyy têm feito com o pop rap. É um álbum feito por todos os Cartis e teoricamente para todos os públicos, mas que em determinado momento se seda com a própria petulância e acaba virando uma bastardização drogada de uma carta aberta.

Tomemos como exemplo uma das maiores músicas de MUSIC, “CRUSH”. Ela varia entre corais de igreja, guitarras de metal, gritos de DJ e um pós-rage internético apenas para terminar com snare rolls histéricos sem ter tido progressão determinada em momento algum de sua duração. É uma música totalmente cínica com o estado da música pop — a parodização dos fãs que cantam como corais — e uma que imbeciliza os signos (ou estéticas; essa palavra é bem importante) do trap e da cultura hip hop ao ponto da dormência — as guitarras plásticas, a felicidade infantil de receber confirmação de sexo. Playboi Carti é uma das únicas pessoas que poderiam idiotizar e esvaziar tudo ao seu redor e, magicamente, fazer disso uma forma de nos viciar em sua visão deturpada e doentia do que significa ser um popstar, um rapstar e um rockstar; todos ao mesmo tempo, em doses incalculáveis.

“CRUSH” não é um caso isolado; a maior parte do álbum brinca com esses paradoxos analgésicos; algo entre o brainrot e a pop art. Seguem anotações diversas:

1) “POP OUT”, começar o álbum com a música mais punk — “I can’t come to your party, I might come just to hurt you”, e, em seguida: “schyeah”.
2) “K POP”, uma música de estádio sem refrão.
3) “EVIL J0RDAN”, um minuto de ode óbvia a edits como esse seguida do beat mais minimalista do disco.
4) “MOJO JOJO”, trazer o rapper mais liricamente reverenciado de sua geração para falar abobrinha (vale destacar: os dois são os maiores hipócritas de suas áreas, mas de jeitos totalmente diferentes).
5) “RATHER LIE”, chamar o maior cantor de sua geração para um tipo de beat que nunca chegou perto de chart algum (claro, a não ser na outra vez que isso foi feito, supostamente com IA, novamente).
6) “The moshpit been toxic, I got too much profit” — Playboi Carti, “TOXIC”.
7) “CHARGE DEM HOES A FEE”, se apropriar de um retalho de outro rapper e deteriorar qualquer noção de identidade no meio tempo — “Don’t do dumb shit, yeah, don’t do dumb shit”, na música mais letárgica da carreira.
8) “I SEEEEEE YOU BABY BOI”, para te lembrar que o Carti a partir de 2018 só queria fazer a PC Music do rap.
9) “COCAINE NOSE”, o maior estereótipo do punk numa letra quase concretista — “Medusa snakes on the airplane” — seguida de “WE NEED ALL DA VIBES”, o pop rap mais pop desde “Compensating”, Aminé, também com Young Thug.
10) “OLYMPIAN”, anacrônico em níveis indeterminados — “Michael Jackson, beat it, B”, “Too many chains, yeah, like an Olympian”.
11) “Nosebleed, yeah, high speed, huh, I can get the rollover” — Playboi Carti, “HBA”, um tipo de ATL trap que só o Carti consegue re-emular.
12) “SOUTH ATLANTA BABY”, uma marcação óbvia de identidade, numa música que contém ao menos cinco concepções regionais diferentes de trap.

Em resumo: quase nada em MUSIC está livre de problemáticas, inconsistências ou microcosmos de paradoxos — e as músicas que estão são justamente as piores. No grandioso ano de 2025, é gratificante ver um artista à frente da juventude, do mercado e de si mesmo discutindo todas as contradições de ser um artista, um jovem e as várias definições de um eu; isso até quando o Carti não assume nenhuma dessas identidades. É viciante, hipnótico, e talvez o mais importante num álbum pop: divertido tanto de se ouvir quanto de se analisar, em vários tons e definições diferentes.

Em uma frase: MUSIC não é uma extensão nem renovação de Carti, mas sim seu carnaval de máscaras de uma pessoa só; o punk-pop rapper. Em uma música:

13) “OPM BABI”, a desis—SWAMPIZZO—tência completa da escolha, a pureza espiritual de um—SWAMPIZZO—rapper em seu quinquagésimo estado de transcendência esté—SWAMPIZZ—tica, a—SWAMPIZZZ—popularização do esotérico pelos caminhos mais ridículos, a nulificação de todos os significados. Uma música perfeita.

SWAMP IZZO!

Selo: Interscope
Formato: LP
Gênero: Hip Hop / Trap

Sophi

Cursando Engenharia de Bioprocessos e Biotecnologia, 18 anos. Encontrou no Aquele Tuim uma casa para publicar suas resenhas, especiais e críticas sobre as mais variadas formas de música. Faz parte das curadorias de Experimental, Eletrônica, Rap e Hip Hop.

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