★★☆☆☆
2/5
2/5
“Demora pra lançar, pra fazer
Demora pra tu perceber que tamo junto é só você
E foda-se CD, eu tenho conteúdo lírico
CD é só matéria, minhas rimas ferem teu espírito”
De certa forma, o MC Marechal é o anti-Djonga. Anti no sentido de ser o oposto, porque, com certeza, ambos apreciam o trabalho um do outro. Marechal tem uma piada recorrente entre os fãs — que não era piada, mas virou — sobre viver adiando seu primeiro álbum solo, que até hoje não existe, vale dizer, e ter uma carreira quase inteiramente composta por singles e colaborações. Mesmo assim, Marechal é uma titã do hip hop nacional, talvez justamente por essa condição. Djonga, por outro lado, é o inverso: nos últimos oito anos, o mineiro esteve presente com alguma novidade a cada momento, seja em álbuns ou faixas, e parece plenamente consciente do volume de seu trabalho.
Lançar (ou não) um álbum não é métrica de qualidade, muito menos de proficiência artística, mas uma das críticas mais comuns ao trabalho de Djonga gira em torno disso: ele lança muito, mas lapida pouco sua sonoridade e refina mediocremente sua estética. O rapper já alcançou picos altíssimos em sua carreira, como em Olho de Tigre, de 2017, obra que o próprio mineiro estima altíssimamente — como bem deveria — ou em suas canetadas históricas na primeira metade da carreira. As palavras-chave aqui são “primeira metade”. O tempo tem sido um pouco cruel com Gustavo, e desde que assumiu o nome Djonga lá em 2012, no meio dos saraus belo-horizontinos, as características e a frequência de seu trabalho facilitam a percepção de que “é tudo igual” — mesmo que essa não seja a intenção do rapper.
Os álbuns de Djonga não são reeeeealmente todos iguais. Mas parecem todos iguais. Isso se acentua quando ele utiliza seu flow característico, que separa a métrica dos versos num ritmo de tercinas que é composto pelas sílabas, não pelas palavras inteiras — meio escansão de aula de literatura no ensino médio. Quanto Mais Eu Como, Mas Fome Eu Sinto! sofre desse efeito mais intensamente do que seus antecessores, em grande parte pelo cansaço causado pela exposição frequente. “LIVRE” seria irado em um trabalho de 2019, mas aqui soa estafado, como um bater-na-mesma-tecla sem fim.
É até engraçado pensar em uma música do Djonga reduzida aos elementos primários – batida, métrica, letra, refrão – e, em seguida, ouvir “FOME”, a abertura do álbum. Teste aí. É quase um tutorial de música-djonga-atualizado-2025.mp4, que em 2011 seria narrado por uma voz artificial com Linkin Park ao fundo em um vídeo do YouTube. É engraçado e trágico, em parte pelo enorme potencial que o mineiro tem, pela avidez com que ele quer expressar sua arte. É angustiante que seja assim, quando Djonga pode tanto mais, deseja tanto mais.
Uma parte boa das faixas do álbum traz refrões cantados por Gustavo, em uma levada meio West Coast noventista. Às vezes, uma voz feminina faz um contraponto sutil, e o resultado é legal, mas não é novo, não instiga, não cresce a arte de Djonga em nada.
Milton Nascimento faz uma participação de marejar os olhos em “DEMORO A DORMIR”, e a sinergia entre os dois é única, quiçá lúdica — como dois bons amigos se divertindo em uma gravadora. Djonga tem um olhar afiadíssimo (ou voraz?) para rimas com duplo sentido entre palavras em inglês e português. Embora essa técnica seja até comum hoje em dia, no início da carreira do mineiro era praticamente inexplorada — como diz a gíria, era “tudo mato”. Por isso, é surpreendente ver os trocadilhos que ele ainda tira da cartola, oito ou nove anos depois. Ainda assim, o esqueleto é o mesmo. “MELHOR QUE ONTEM” é uma lovesong que poderia estar em qualquer outro álbum do mineiro, e, consequentemente, uma limitação na arte de Gustavo. Além disso, a vibe lembra páginas de “Frases Djonga” no Facebook, com direito a “É Djonga, você tinha razão…” e tudo. Por fim, tem o Los Hermanos (que aqui carinhosamente chamamos de Loser Manos). Entenda como quiser.
Gustavo pode — e eu adoraria dizer deve — criar mais, sonhar mais, almejar mais. Não é crasso o que ele compõe, canta e rima, mas, ao mesmo tempo, não inspira, não comove, não movimenta. Embora seus temas sejam relevantes — como o rap deve ser (mesmo que superficialmente relevante; o trap é fruto disso e ainda assim delicioso) — sua presença ainda é bem delimitada e marcante. Além disso, ele ainda dá espaço para artistas menores (alô Sidoka!), como outros fizeram com ele. No entanto, falta brio, falta um quê. Se o Mano Brown, que ouvia Curtis Mayfield, fez um projeto de boogie, o que impede Djonga, que historicamente esbraveja suas discordâncias, de inovar, ir além?
Movimento. A vida sem movimento é uma casca, um simples sobreviver. Os corpos tendem ao repouso; o movimento tende a continuar indefinidamente, a menos que forças atuem sobre ele. Me parece que frearam o Djonga de 2019, e a física fez seu trabalho de mantê-lo em repouso, já que nenhuma outra força veio para o mover. O desejo é se mover novamente, não voltar àquilo de antes, não, mas mover-se de novo, em busca de novos ares, novas experiências. “CD é só matéria”, e é verdade; talvez ouvir o sample de Maria Bethânia em “Espírito Independente” faça bem. “Vam’bora andar…” a tristeza é maior que a inconformidade.
Selo: A Quadrilha
Formato: LP
Gênero: Hip Hop