Crítica | Way Through


★★★☆☆
3/5

O álbum de estreia de Cici Arthur, Way Through, foi lançado em 21 de fevereiro. O trio canadense, formado pelo vocalista Chris A. Cummings e os músicos Joseph Shabason e Thom Gill, já haviam colaborado em trabalhos anteriores, mas nunca sob este novo nome. Com mais de duas décadas em atividade, Cummings já lançou cerca de dez álbuns sob as alcunhas de Mantler e Marker Starling.

O recente projeto nasceu em 2020, quando o cantor perdeu o emprego em meio à convulsão socioeconômica causada pela Covid-19. Ele, então, decidiu seguir dois caminhos: a) dedicar-se à música integralmente pela primeira vez e b) pegar sua bicicleta e explorar novos trajetos em seu bairro. A perambulação inspirou o artista a adentrar caminhos externos e internos até então desconhecidos.

Com acenos para os estilos românticos de Tom Jobim e Frank Sinatra, o trio consegue dar uma roupagem contemporânea à sonoridade orgânica munida de elementos de R&B, lounge e jazz. Os sintetizadores oníricos e graves eletrônicos distorcidos conferem uma personalidade jovial às faixas que se beneficiam deles, como “Cartwheels For Coins” e “Damaged Goods”.

A construção de algumas unidades sonoras parece encapsular a dicotomia de luz e sombra em uma penumbra irradiante. Há uma sinergia confortável entre o que é cantado e o que é tocado, representada com excelência em “All So Incredible”, em que os vocais de Cummings são levados ao limite, em contraste com pianos delicados e pratos de bateria místicos.

A composição se destaca pela humanidade ao narrar obstáculos tão próprios da experiência de se estar vivo. Súplicas por respostas de problemas insolucionáveis, protestos contra sentimentos amargurados e algumas contemplações esperançosas guiam a jornada de ajuste de expectativas. Às vezes a vida nos tritura como um moedor de carne mesmo. E o melhor a se fazer é chegar ao outro lado.

“É difícil aceitar quando o milagre que você esperava nunca chega
Mas a culpa é sua por esperar”


- Cici Arthur em “Way Through”

A faixa-título desde o início concentra todo o emaranhado de otimismo e desalento presente ao longo do álbum. Os vocais doces de Cummings são impulsionados por instrumentos de sopro virtuosos e harmonias translúcidas que conduzem a música por estados de torpor, euforia e serenidade. É uma combinação que faz falta em faixas como “Stolen Joy” e “Felt In An Instant”, que carecem de relevo e acabam tornando-se planas com suas durações.

Way Through é um novo caminho reflexivo para Cici Arthur. Aos 55 anos, Chris A. Cummings sabe utilizar com maestria a maturidade de sua voz como instrumento para transmitir suas desilusões. A parceria com Joseph Shabason e Thom Gill rendeu um trabalho melancólico, regado a gotas de esperança. Dado o contexto de criação do projeto, é perceptível como a arte se mostrou como um apoio para os artistas em tempos de desamparo.

Selo: Western Vinyl
Formato: LP
Gênero: R&B / Lounge, Jazz

Tobia Ferreira

Emo de banho tomado e quase jornalista cultural. Graduando em Jornalismo pela USP e repórter do Aquele Tuim, em que faz parte das curadorias de Funk e R&B e Soul.

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