Crítica | Glory


★★★☆☆
3/5

Glory é um catálogo de faixas suaves e fluidas, caracterizado pela sua imersão em diferentes texturas. A voz, por vezes etérea, se destaca, e é interessante notar como há uma concentração em grandes mudanças de dinâmicas, o que valoriza as camadas de som e a progressão lenta, criando uma experiência sensorial agradável. Trata-se de uma expressão de liberação de sentimentos reprimidos ou emoções intensas, que segue uma linearidade, na qual momentos em que acordes mais dissonantes aparecem, conectando-se com a tensão e a instabilidade. Isso nos leva a uma necessidade de que algo precise ser resolvido. A bateria expressiva, por sua vez, vai de toques suaves e sutis a momentos intensos, mesmo que com um teor cru, estabelecendo uma ligação com a narrativa que percorre todo o disco.

A sonoridade de Glory marca uma mudança sutil no caminho musical do artista, retornando a uma abordagem mais direta e centrada no indie rock, com um foco mais evidente nas guitarras. Esse contraste com os últimos álbuns, que flertaram com o art pop e as influências do ambient pop, traz uma sensação de uma construção mais orgânica. A música é projetada para criar momentos de catarse, como se houvesse um controle preciso sobre o timing de surgimento de acordes mais dissonantes e batidas explosivas. Isso resulta em uma sonoridade menos dependente de sintetizadores, o que dá uma sensação de crueza musical e um som mais tátil.

“It’s A Mirror” parece retratar algo inalcançável, trazendo a sensação de abandono em espiral. Nesse momento, Handreas parece estar preso em sua mente, diante de um caos conturbado pelos anseios e pela ansiedade. Em seguida, destaca-se a apaixonante, imutável e confiante “Me & Angel”, que traz uma delicada reflexão sobre a natureza do outro. Na canção, por exemplo, Mike faz declarações intensas e diretas, enquanto em faixas como “Capezio”, há uma exploração de sentimentos não correspondidos, demonstrando uma vulnerabilidade palpável. No entanto, logo transita para um lado mais sentimental em “Left For Tomorrow”, onde carrega a dor de lidar com a ausência. Essa mudança de tom também reflete a abordagem mais pessoal e contida do álbum, com a atenção voltada para as letras e a vivência emocional. A canção se torna imaginativamente poética, com lamentações que intensificam a sensação de sofrimento contínuo, a qual é claramente evidenciada em “Full On”.

Nesta faixa, a música transmite empatia e também a resignação, como se a aceitação da dor fosse a única saída possível. Essa conexão emocional se estende ao longo de todo o disco, criando uma narrativa clara de sentimentos complexos e conflitantes. Esse contraste entre o sofrimento e a esperança parece refletir uma evolução do artista, que agora se apresenta mais otimista e aberto, criando um álbum genuinamente esperançoso.

“Hanging Out” possui um tom sombrio, quase animalesco, como se houvesse uma busca por algo primordial e incontrolável em meio ao caos. Por fim, o álbum se encerra com “Glory”, que é um estranho desprendimento errante — um distanciamento e desconexão do corpo, representando um descanso após a fúria, o famoso “dias de glória”. Essa conclusão fecha o ciclo e também transmite uma sensação de resolução emocional, que é típica de um artista queer que explora, de forma honesta e aberta, os altos e baixos da experiência humana em sua música.

Selo: Matador
Formato: LP
Gênero: Pop / Cantor-Compositor, Art Pop

Brinatti

Cientista Social formado (antropólogo e sociólogo), mestrando em Antropologia Social, 27 anos. Editor, redator e repórter no Aquele Tuim, com participação nas curadorias de Funk e Pop.

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