★★★☆☆
3/5
Uma tendência, das mais interessantes, bem comum da música eletrônica do século XXI é criar ritmos de dança de maneiras não convencionais, recorrendo a quebras de ritmo constante, instrumentais com beats dissonantes entre outros. No geral, uma influência muito grande do que se espalhou na internet é o “deconstructed club” (que neste texto será abreviado como d-club), um gênero bem relacionado a essas formas não convencionais. Esse é o lado que o álbum novo de aya, hexed!, percorre.
Importante dizer de antemão que hexed! é ainda menos convencional do que a própria convenção do gênero citado anteriormente. Muito disso vem de um distanciamento contínuo entre elementos da música, o instrumental no geral funciona com elementos bem isolados entre si, no máximo a voz da artista encosta em algum sintetizador, ou baixo. Quando se pensa nas grandes referências da produção do d-club, vêm logo à mente as produtoras Arca e SOPHIE; no caso de SOPHIE, há ali uma outra filosofia para o gênero, em que os elementos do instrumental ficam amalgamados, praticamente sobrepostos — apesar de que essa filosofia se dissolveu no seu álbum póstumo, mas, infelizmente, muita gente não soube apreciar o que havia de bom nisso. Já na obra de Arca, até há um distanciamento sonoro entre os elementos, contudo, se cria uma teia de elementos mais consistente, aparentemente “coesos”.
É justamente isso que faz a diferença em hexed! e talvez seja a grande contribuição no debate que esse álbum tem a trazer: até que momento vale considerar o elemento da “coesão” como algo inerentemente positivo sobre um trabalho musical? Notavelmente, quando se usa esse adjetivo na maioria das vezes o que a pessoa quer dizer é que várias músicas são boas, mas esse é o uso mais bobo da palavra, e eu gostaria de levar isso um pouco mais a fundo. Coesão levada a um nível mais individual em um álbum também pode se referir à quantidade de gêneros usados em uma obra completa; ainda mais individualmente, pode se referir ao instrumental e como ele cria alguma forma específica em um LP, EP ou qualquer outro formato.
No novo lançamento de aya, parece quase um crime tentar ditar uma forma específica para ele, porque, a qualquer nível individual, esse é um álbum que não tem qualquer interesse de ter uma forma, em nenhuma de suas músicas, ou numa filosofia geral. O que pode ser confuso para algumas pessoas é que isso não é qualquer demérito, a hipótese mais provável é que seja a maior qualidade desse lançamento. aya, então, faz um corpo sem esqueleto ficar em pé. Isso pois, definitivamente, há uma noção excelente de estrutura nessas músicas, mas uma noção “coesa” de forma, não. Então esse corpo pode ser gelatinoso para abrigar os órgãos em qualquer ordem que quisesse — um olho no pé e outro no rosto — mas não tenha dúvidas, ele consegue permanecer em pé.
Ainda sim, o sentimento do “club” está ali, traduzido em padrões de bateria acelerados, ou baixos incessantes que marcam o tempo da dança, que, de alguma forma, te forçam a imaginar os modos mais absurdos de movimento, que possam minimamente dar conta de todas as texturas que estão nas músicas do álbum. E ainda bem que as músicas possuem tanto espaçamento, assim, dá tempo de imaginar o próximo movimento que você pode fazer para se adequar, e para isso provavelmente é necessário ter um corpo gelatinoso (que, de preferência, fique em pé) para executar essa dança.
Selo: Hyperdub
Formato: LP
3/5
Uma tendência, das mais interessantes, bem comum da música eletrônica do século XXI é criar ritmos de dança de maneiras não convencionais, recorrendo a quebras de ritmo constante, instrumentais com beats dissonantes entre outros. No geral, uma influência muito grande do que se espalhou na internet é o “deconstructed club” (que neste texto será abreviado como d-club), um gênero bem relacionado a essas formas não convencionais. Esse é o lado que o álbum novo de aya, hexed!, percorre.
Importante dizer de antemão que hexed! é ainda menos convencional do que a própria convenção do gênero citado anteriormente. Muito disso vem de um distanciamento contínuo entre elementos da música, o instrumental no geral funciona com elementos bem isolados entre si, no máximo a voz da artista encosta em algum sintetizador, ou baixo. Quando se pensa nas grandes referências da produção do d-club, vêm logo à mente as produtoras Arca e SOPHIE; no caso de SOPHIE, há ali uma outra filosofia para o gênero, em que os elementos do instrumental ficam amalgamados, praticamente sobrepostos — apesar de que essa filosofia se dissolveu no seu álbum póstumo, mas, infelizmente, muita gente não soube apreciar o que havia de bom nisso. Já na obra de Arca, até há um distanciamento sonoro entre os elementos, contudo, se cria uma teia de elementos mais consistente, aparentemente “coesos”.
É justamente isso que faz a diferença em hexed! e talvez seja a grande contribuição no debate que esse álbum tem a trazer: até que momento vale considerar o elemento da “coesão” como algo inerentemente positivo sobre um trabalho musical? Notavelmente, quando se usa esse adjetivo na maioria das vezes o que a pessoa quer dizer é que várias músicas são boas, mas esse é o uso mais bobo da palavra, e eu gostaria de levar isso um pouco mais a fundo. Coesão levada a um nível mais individual em um álbum também pode se referir à quantidade de gêneros usados em uma obra completa; ainda mais individualmente, pode se referir ao instrumental e como ele cria alguma forma específica em um LP, EP ou qualquer outro formato.
No novo lançamento de aya, parece quase um crime tentar ditar uma forma específica para ele, porque, a qualquer nível individual, esse é um álbum que não tem qualquer interesse de ter uma forma, em nenhuma de suas músicas, ou numa filosofia geral. O que pode ser confuso para algumas pessoas é que isso não é qualquer demérito, a hipótese mais provável é que seja a maior qualidade desse lançamento. aya, então, faz um corpo sem esqueleto ficar em pé. Isso pois, definitivamente, há uma noção excelente de estrutura nessas músicas, mas uma noção “coesa” de forma, não. Então esse corpo pode ser gelatinoso para abrigar os órgãos em qualquer ordem que quisesse — um olho no pé e outro no rosto — mas não tenha dúvidas, ele consegue permanecer em pé.
Ainda sim, o sentimento do “club” está ali, traduzido em padrões de bateria acelerados, ou baixos incessantes que marcam o tempo da dança, que, de alguma forma, te forçam a imaginar os modos mais absurdos de movimento, que possam minimamente dar conta de todas as texturas que estão nas músicas do álbum. E ainda bem que as músicas possuem tanto espaçamento, assim, dá tempo de imaginar o próximo movimento que você pode fazer para se adequar, e para isso provavelmente é necessário ter um corpo gelatinoso (que, de preferência, fique em pé) para executar essa dança.
Selo: Hyperdub
Formato: LP
Gênero: Eletrônica / Deconstructed Club, UK Bass