★★★☆☆
3/5
Quando se pensa em música clássica hoje em dia, muito raramente se fala de um desenvolvimento feito após os anos 80. Isso porque, já no começo dos anos 70, o futuro da música clássica era fácil de prever: inexistente. A música pop estava iniciando o seu auge e as barreiras da composição já tinham sido rearranjadas de todas as formas possíveis; era muito difícil achar algo novo para inventar. Os desenvolvimentos mais marcantes desde então foram aqueles que surgiram da clássica mas que, indubitavelmente, se distanciaram dela — vieram a formar a música experimental como entendemos hoje: eletroacústica (que já existia há um bom tempo), improvisação livre, música ambiente, drone, noise, industrial, etc. Portanto, há uma dureza muito bem definida, quadrada, formalista que permeia a música clássica; parada no tempo.
É interessante, então, ver o trabalho de artistas que buscam aproximar, novamente, esses gêneros de música experimental ao mundo da clássica. Esse é o caso de Guidelines/Fonaments, de Joan Arnau Pàmies. Nele, não ocorre um processo de expansão de barreiras, de buscar algum lugar em que é possível encaixar mais referências. O que ocorre é tentar enfiar — de forma bruta mesmo, quase machucando — essas novas concepções além da clássica dentro de seus moldes. Há quase uma inabilidade de escapar desses moldes, forçadamente reprimindo qualquer coisa externa sem se importar se elas cabem nestes espaços minúsculos. Isso ocorre com o jazz na forma da improvisação livre, da eletrônica com a eletroacústica, da música ambiente com sua construção de atmosfera… é um álbum recheado, embora isso possa não ser aparente para os ouvidos menos atentos.
Por falar em eletroacústica, sua principal manifestação nem se encontra no uso de uma fermentação eletrônica. É mais sobre os resultados e o motivo de fazer eletroacústica: a qualidade sonora, as especificidades da acústica de um som. Cada música tem um cuidado diferente com o instrumento — o piano —, uma forma diferente de usá-lo; tocá-lo. As dinâmicas e detalhes mudam drasticamente entre as faixas, de forma que o modelo de composição da clássica ora se reforça — o resto sufocado — ora existe quase como um termo inconsciente, em que o artista não se importa com sua existência, mas não consegue escapar dela. Isso dá uma quantidade de nuances bem variada a um álbum que, à primeira vista, é apenas mais uma interpretação de clássica moderna.
Esse caráter dual entre o quadrado e o livre é a maior força do disco, mas, além dela, pouco chama a atenção. A formalidade não atinge um estado de pureza cristalino pois está corrompida, mas essa corrupção nunca toma conta de um todo, apenas de uma parte; uma parte que, embora pequena, é incômoda e causa efeito. Por isso que eu disse que é interessante ver um tipo de música que reintegra o experimental na clássica; é interessante, não fascinante. Guidelines/Fonaments deixa uma impressão altamente técnica, teórica ao seu término, mas não de maneira surpreendente — “como ele fez isso?” — e sim de maneira mais passiva, aceitável. É especial, mas pouco marcante. Causa emoções, mas poucas profundas.
Para os fãs de clássica não moderna, pode ser um tédio; para os que gostam de experimental, também. A impressão positiva tem como público-alvo algo bem reduzido: fãs de clássica que gostam mais de música experimental que de clássica. Assim, o disco atinge seu máximo; que, em verdade, serve mais de leve rememoração como conquista técnica que como experiência emocional. Funciona, e muito bem.
Selo: Protomaterial
Formato: LP
Gênero: Clássica / Clássica Moderna, Improvisação Livre