Crítica | Próximo


★★★★☆
4/5

Não é difícil sentir o que Arthus Fochi canta: seus vocais são como uma carta curinga, ajustável às suas cordas e ao ritmo sempre disperso em uma paleta sonora que é familiar nas suas obras. Ainda assim, Próximo, disco colaborativo com a dupla baiana cajupitanga, surpreende ao revelar novos destinos para sua voz. Em “Memória Boa”, por exemplo, ela se esvai aos poucos, não para o nada, mas para uma manipulação desregrada, difusa, porém perfeitamente alinhada à bateria empunhada de free-jazz, cheia de camadas, que se mescla ao todo.

Essa estranheza nasce do trabalho de Gabriel Tupy e Candioco, o cajupitanga, que, à distância, transforma gravações livres de Fochi — hoje residente na Dinamarca —, feitas em outro canto do mundo. A dupla molda o material por meio de colagens e manipulações digitais, conferindo ao álbum um tom de ruptura que o afasta das raízes mais confortáveis e recorrentes da sobriedade de Fochi. Esse cutucão se revela eficaz ao fazer com que cada faixa adquira forma e espaço próprios: ora mais ruidosa (“Fogueira Arraigada”), ora mais acústica e atrelada ao cancioneiro folclórico latino (“De Colores”).

No cerne do disco, reinam as memórias. As reflexões de Fochi sobre o tempo — e nada seria tão literal quanto o próprio tempo para moldar Próximo — atravessam mutações estéticas promovidas pela dupla, que fragmenta e reconstrói suas composições de forma irregular, sampleando o próprio objeto e transfigurando-o. O resultado oscila entre aptidão e inaptidão para comportar intimidades, devaneios e a minúcia com que cada som é gerido. Mais do que tudo, Próximo é um registro de criação musical livre de imposições que não sejam as razões materiais — como a distância que impediu qualquer encontro entre cajupitanga e Fochi. E, por isso, é excelente no ato de gerar vínculos — todos eles. Entre nós e eles. Entre eu e você.

Selo: ensayos contemporáneos (Cantores Del Mundo)
Formato: LP
Gênero: Música Brasileira

Matheus José

Graduando em Letras, 24 anos. É editor sênior do Aquele Tuim, em que integra as curadorias de Funk, Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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